Adelaide Yvone de Sousa

Assim começa o estudo de Manuela Vasconcelos sobre os maiores vultos do espiritismo em Portugal:

“Para se levar a bom porto a nau kardecista, não deixemos de recordar o valor daqueles que, antes de nós, foram os obreiros corajosos que com amor e dedicação defenderam o nosso Ideal”. – ADELAIDE YVONE DE SOUSA.

De artista plástica, a escultora, atriz de teatro, a Escola Superior de Belas Artes, o seu gosto pela leitura e a sua sensibilidade que viria a ser aplicada às actividades que mais tarde se dedicou, transformaram Yvone de Sousa um dos baluartes do Espiritismo Português. Na escrita, participou em diversas publicações com o seu nome e o seu pseudónimo.

Manuela Vasconcelos em seu estudo:

“Não conseguimos encontrar qualquer data que nos referisse o nascimento e localidade de onde foi natural, mas pensamos que tenha nascido no final do século XIX, já que o seu apoio à Federação Espírita Portuguesa vem quase que desde os primeiros anos de existência da Instituição. Fez parte dos Corpos Sociais de 1950, e encontram-se inúmeros artigos seus publicados na ‘Revista de Espiritismo’ e, depois, na ‘Revista de Metapsicologia, ambas da FEP, tal como existem muitas referências na Revista ‘Além’, da Sociedade Portuense de Investigações Psíquicas, do Porto. Conforme articulista da ‘Além’, que a refere numa das suas deslocações ao Porto para uma das suas palestras na S.P.I.P., “personificava a bondade, simplicidade e modéstia raramente encontradas na mulher portuguesa daquela época”.(1) Fazendo parte da alta sociedade devido à sua situação nobiliárquica foi, ainda, distinta pintora e escultora, com exposições das suas obras não só em Portugal como no estrangeiro, não tendo nunca contemporizado (conforme afirmativa do Prof. António Cardoso), com a chamada “arte moderna”. De si própria, escreveu:

Quando os meus dezassete anos ávidos de tudo saber, liam Eça, Junqueiro, Lamartine, Victor Hugo, D’Annunzio, Kropotkine, Tolstoi, etc., etc., julgava eu que a transformação das sociedades não se realizaria antes do ano 2000. Grande foi, porém, a minha surpresa quando a Guerra Mundial de 1914-18 veio sacudir como num arranco de terramoto os alicerces do Velho Mundo. Apenas decorridos vinte anos, novo e violento abalo lhe causa a Grande Guerra de 1939-1945, deixando todos apavorados pela transformação que trouxe(…)”.(2)

É uma das grandes impulsionadoras da criação de um ‘Lar Espirita’, para a terceira idade e para doentes, fundando, ainda, na F.E.P., durante o ano de 1950, o ‘Núcleo da Juventude Espírita Portuguesa’, embora já em 1949 mostrasse a sua preocupação pela juventude que revelava, com o seu comportamento, a grande e calamitosa crise moral que atravessava. Transcrevemos, da sua autoria, um artigo bem revelador da sua preocupação com a Juventude Espírita e publicado na revista da Federação:

“É hábito de muitos pais e mães esperarem que seus filhos amadureçam em idade e conhecimentos adquiridos por eles próprios ao acaso, forçados assim a serem autodidatas em todos os géneros de conhecimentos que precisam para a sua vida. Em minha opinião, este critério, muito corrente, é péssimo, porque além de muito tempo que esse ser perde à procura do que precisa assimilar, acontece muita vez que não o consegue por falta de preparação, ou então compreende mal os conhecimentos adquiridos, chegando a convencer-se, vaidosamente, que conquistou méritos que nunca possuiu. Há, ainda, o que não é menos frequente, que esse indivíduo segue correntes deletérias, que o arrastam para abismos.

“A crise moral da nossa juventude é quase uma calamidade, devido à falta de preparação. Poderei parecer pessimista no que afirmo, porque neste pequeno artigo falta-me espaço para expor factos comprovativos. Direi apenas que em Portugal não se ensina a mocidade a pensar nem a meditar, para saber relacionar cada fase da vida em relação a outra. As características que nos oferece o passado no bem e no mal, o progresso do presente e a evolução que tem de realizar incessantemente para a sua própria felicidade no futuro, são normas desconhecidas da gente moça de agora.

“Um dos mais sérios problemas que urge e interessa aos espiritistas portugueses, é a saúde não só moral, mas também fisica da nossa mocidade, porque, como já disse, um corpo doente raramente pode proporcionar um bom estado de alma, fornecendo boa disposição para as lutas e alegrias inerentes à vida.

“É do conhecimento de todos que a raça lusa caminha a passos gigantescos para a degenerescência devido à terrível doença que os americanos tão bem chamaram ‘a grande imitadora’, ou seja a sífilis. Com uma percentagem assustadora, por contágio ou por hereditariedade, ela vai dizimando uma população outrora tão robusta.

“Que se tem feito em Portugal para defender a mocidade deste terrível flagelo?

“Os governos da Alemanha, da Suiça, da América, dos Países Baixos, estabeleceram rigorosas medidas profiláticas a ponto de na Dinamarca a sífilis, presentemente, estar exterminada. A Alemanha chegou mesmo a exigir o atestado pré-nupcial e levou o seu rigor a impor severas penalidades a quem se frustrasse aos tratamentos, aplicando a esterilização a doentes considerados incuráveis.

“O Espiritismo que nasceu da Razão Científica e do Espírito da Verdade reflector dos esplendores divinos está absolutamente indicado para ser o orientador das juventudes a fim de que elas possam aproveitar melhor a sua passagem pela Terra. Pertence, portanto, ao neoespiritualismo organizar os processos da educação dos jovens.

“O Brasil está resolvendo este problema com bastante actividade, obtendo os melhores resultados.

“Em 1945, na Fed. Esp. Portuguesa, lancei o meu primeiro brado, chamando a atenção de todos para esta questão de palpitante interesse.

“Dê-se, pois, à mocidade as regras de conduta que lhe faltam. Ensine-se aos nossos rapazes e às nossas raparigas quanto vale o potencial da juventude, para saberem aproveitar com espiritualidade toda a exuberância de Vida que o Criador lhes deu. “Ensine-se-lhes a utilizarem devidamente os seus nobres impulsos e também a refrearem os ímpetos defeituosos. Ilumine-se claramente com todos os fulgores da Verdade, da Justiça e do Amor a estrada da sua vida, desde o berço, e assim veremos a nossa bela doutrina tornar-se universalmente aplicada pela formação duma Humanidade melhor.

“Neste desejo, a Direcção da F.E.P. já convidou muito fraternalmente todos os seus confrades e os jovens de maior idade a darem a sua adesão à Mocidade Espírita Portuguesa”.(3)

Substituindo a ‘sífilis’ pela ‘Sida’, este artigo é tão oportuno hoje, ano de 2006, como em 1949, quando foi publicado. Para além da sua dedicação à Doutrina Espírita, foi, ainda, “(…) Zoófila activa, colaborou em várias campanhas a favor dos animais” (para além de diversas palestras sobre a alma dos mesmos), “representou Portugal no Congresso Naturista Internacional, realizado na Jugoslávia. Fundou, com outros elementos, a ‘Associação Vegetariana Portuguesa’, e organizou na ‘Casa do Alentejo’ a Primeira Semana dos Artistas Naturistas, que constituiu um êxito”.(6) Em finais de 1954, conforme artigo publicado na revista REFORMADOR, da Federação Espírita Brasileira, (4) Adelaide Yvone de Sousa, conjuntamente com António J. Freire, num Movimento que não se concretizou, tenta criar a “Cruzada Espírita Portuguesa”, que substituirá a Federação suspensa em Novembro de 1953 pelo Ministério da Educação Nacional. Depois da Revolução dos Cravos que, entre muitas outras coisas, trouxe a liberdade religiosa para Portugal, e a possibilidade do renascimento – se assim se pode dizer – do Movimento Espírita, Adelaide Yvone de Sousa colabora com a Federação, que é reaberta. Os leitores espíritas voltam a encontrar os seus artigos, publicados na revista ‘Estudos Psíquicos’, e, ‘recordando amigos desaparecidos’, ela escreve :

“Para nós, espíritas portugueses, nunca é demais dizer que 1977 foi um ano histórico. Nele levantámos colunas para restabelecer os baluartes do Espiritismo após terem sofrido a catástrofe que lhe infligiu o governo de Salazar. Histórico, também, porque pela primeira vez o Presidente de uma Federação nos veio trazer o seu abraço fraterno e dizer-nos palavras de encorajamento em nome do seu Pais, o Brasil Espírita e amigo, ou seja, a Pátria do Evangelho. E todo esse encorajamento nos dará forças para reconstituir o que foi demolido, numa reconstrução solidamente estruturada que sirva de estrela-guia ao povo português. O Espiritismo tem uma grande tarefa a desempenhar na sociedade portuguesa.

“Para se levar a bom porto a nau kardecista não deixemos de recordar o valor daqueles que, antes de nós, foram os obreiros corajosos que com amor e dedicação defenderam o nosso Ideal.

“Que o seu exemplo sirva de ânimo aos novos para vencer os obstáculos que tenham de enfrentar, pois que a luta continua. (…)”.(5)

Esta mesma dedicação fá-la participar dos Corpos Sociais da Federação, sob a Direcção de Maria Raquel Duarte Santos, mas a idade já é muita, e desencarna em 26 de Dezembro de 1983. Conforme escreveu o Prof. António Cardoso, (…) “Ivone de Sousa foi talvez um dos últimos baluartes do Espiritismo dos anos trinta, que nos acompanhava ainda. Com a sua partida o Espiritismo Português ficou mais pobre, pois dificilmente voltaremos a encontrar substitutos para aqueles que viveram plenamente, na Terra, os ideais que decidiram abraçar”. (6)

(1) – Revista ALÉM, da S.P.I.P., de Setembro/Outubro de 1946;

(2) – Revista de METAPSICOLOGIA, da F.E.P., Novembro de 1950;

(3) – Revista de METAPSICOLOGIA da D.E.P., Agosto de 1949;

(4) – Revista REFORMADOR, da Federação Espírita Brasileira, Março de 1978

(5) – Revista portuguesa ESTUDOS PSIQUICOS, Março de 1978.

(6) – Revista ESTUDOS PSIQUICOS, Maio/Junho de 1983.”

http://www.comunhaolisboa.com/wp-content/uploads/2013/02/ALGUNS-VULTOS-DO-MOV-ESP-PORT-M.E.P.-FINAL.pdf

“No tempo das dálias”, programa da RTP, podemos ouvir falar de Yvone de Sousa, programa esse que os convidamos a consultar:

https://www.rtp.pt/play/p5384/e432727/no-tempo-das-dalias

Em contacto com a sua Bisneta, recebemos várias fotografias representativas do seu percurso escolar e artístico. Representada no Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha, desde muito cedo que demonstrou a sua sensibilidade.

Excursão e fotografia da Escola de Belas Artes

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Peças de teatro em que participou na sua formação artística

É também a sua vertente naturista e defensora dos animais que a faz, não só ser uma referência em Portugal, como na sua passagem por Marrocos, se torna uma lutadora pelos direitos dos animais (registos familiares)

Juntamos ainda o seu retrato feito por Martinho da Fonseca e representado o seu original no Museu Grão Vasco, blob:https://www.facebook.com/22420bf7-c0db-4f46-9dfb-4ff3b55e3ae3

Adelaide Yvone de Sousa, filha de João Justiniano Sousa e Clotilde Adelina Oliveira Sousa, casou com João Sainte-Marie e desencarnou no dia 26 de Dezembro de 1982.

Livro disponível na Federação Espírita Portuguesa

1 comentário em “Adelaide Yvone de Sousa”

  1. Eu não conhecia a vida e atividades da Adelaide Yvone de Sousa.
    Um exemplo de vida no bem-comum sob a bandeira da fraternidade espírita em Portugal.
    Parabéns a Manuela Vasconcelos pelo trabalho histórico.

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